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Desenvolver
um programa é pura poesia
Desenvolver um programa é
pura poesia
Marcelo Balbio
A voz suave e o jeito delicado podem camuflar a personalidade
arrojada de Marília Guimarães, mas o
relato de seus feitos - no passado e no presente -
ajuda o interlocutor a compreender um pouco da vida
da empresária. No final dos anos 60, ela seqüestrou
um avião e fugiu com os filhos para Cuba. Dez
anos depois, voltou para o Brasil e fundou com a família
a Ebendinger Systems, empresa especializada em sistemas
para computador, que atualmente conta com uma filial
nos EUA. Nesta entrevista ao Info etc., em seu escritório
na Barra, ela afirma que hoje ninguém precisa
mais pegar em armas para fazer uma revolução.
Basta recorrer à informática e à
Internet.
A senhora acredita que, hoje em dia, é possível
fazer uma revolução sem pegar em armas,
mas usando computadores?
MARÍLIA GUIMARÃES: Eu acho que estou
participando desta revolução porque,
no momento em que você põe à disposição
do usuário leigo ou não-leigo uma maneira
mais fácil dele ou manipular suas informações
ou modernizar sua empresa, você está
fazendo uma revolução. Esta é
uma revolução tecnológica, mas
também é uma revolução
de educação, de costumes. Eu acho Bill
Gates um cara extremamente revolucionário.
Revolucionário?
MARÍLIA: Bill Gates possibilitou que você
tivesse um micro e que, através de um editor
de textos, pudesse se comunicar. Ele popularizou a
Internet, porque a Internet existe há muito
tempo mas era para uma classe muito privilegiada,
como intelectuais e estudantes. Eu sou da época
em que a Internet era por código. Passar e-mail
era uma dificuldade incrível. Hoje, tanto o
filho de um milionário quanto uma pessoa muito
pobre, mas que possa entrar na Internet, podem entrar
no Louvre ou numa biblioteca, podem se comunicar com
outras pessoas. Isso é uma revolução
que o mundo não esperava.
Esta não é uma visão muito romântica
ou otimista de Bill Gates e da realidade? Algumas
pessoas acreditam que a difusão da tecnologia
está criando uma legião de "excluídos",
ou seja, aqueles que não têm acesso às
facilidades da tecnologia...
MARÍLIA: Eu acho que eles são tantos
que já deixaram de ser excluídos. Antes
da Internet, o pobre, que continua sendo pobre, não
tinha acesso a um livro e, muito menos, à escola.
Hoje, o pobre-pobre, se tiver um mínimo acesso,
na casa do patrão, a um computador, pelo menos
vai ver que existe uma outra opção de
conhecimento. Ele pode até não manipular,
e até acredito que não manipule, mas
pode encontrar computadores em bares, escolas e até
em favelas.
E esta situação melhorou?
MARÍLIA: Sempre haverá excluídos,
isso a gente sabe. É inevitável. Primeiro
porque a gente vive num país de Terceiro Mundo
e o Brasil é um dos países mais pobres
da América Latina. Mesmo assim, a Internet
fez com que esse pobre no Brasil tivesse mais acesso
à informação. E não é
só Internet. A própria televisão
trouxe muita informação para as pessoas.
Se hoje você vai à favela da Rocinha,
por exemplo, há projetos de informática,
muito bons, por sinal. E quando que há dez
anos você ia à Rocinha e alguma criança
tinha pegado num livro?! Hoje, ela tem um computador
e pode até ler um livro no computador.
E a senhora realmente tem esta admiração
toda por Bill Gates?
MARÍLIA: Ele é realmente um cara revolucionário.
Ele não criou softwares só para a grande
indústria, ele criou para o usuário
leigo, não-especializado. Acho que há
poucas pessoas no mundo que são realmente ousadas,
aquelas que vão carregando o caminho do futuro.
Bill Gates pode ser acusado de monopólio, mas
foi benéfico. Porque possibilitou que todo
mundo pudesse ter acesso à informação.
O que muda o mundo é o conhecimento. As pessoas
só questionam quando elas conhecem. Só
sofrem mais porque conhecem mais. E isto está
mudando no mundo. Quem é contra a tecnologia
é contra o avanço do ser humano.
E Steve Jobs?
MARÍLIA: Ele não teve visão
de mercado e elitizou um pouco. Eu adoro a Apple,
mas devo reconhecer que ela foi elitizada. A Apple,
sim, foi para os excluídos, os excluídos
chiques. Ela não se popularizou.
Acho que a senhora é mesmo romântica...
MARÍLIA: Não acho a informática
nada fria. Acho lindo fazer um super-sistema poderoso.
Fazer um programa é pura poesia. Às
vezes, entro na Internet, faço um sisteminha
e fico feliz. O programador é um poeta. Ele
cria coisas, para ficarem sempre mais simples para
o usuário.
E a senhora acabou virando uma informata profissional?
MARÍLIA: Não tive outro jeito. Nunca
entrei na área de programação
porque não chegamos a precisar disso. Sempre
fiquei mais com o lado administrativo. Mas acabei
aprendendo e, no início, cheguei a dar suporte
aos usuários do kit 5 (gerador de sistemas).
A senhora viveu dez anos em Cuba e mantém
laços com o país. Do ponto de vista
tecnológico, há alguma semelhança
com o Brasil?
MARÍLIA: Cuba e Brasil têm os mesmos
tipos de problemas, com a diferença de que
os cubanos são pobres, mas felizes. Eles têm
acesso à saúde, à educação
e à informação. Ter uma calça
jeans ou mascar chiclete não é o que
faz falta. O que faz falta mesmo é música,
teatro, etc.
A senhora está escrevendo um livro. Como será
ele?
MARÍLIA: É um livro autobiográfico,
dividido em três etapas. Uma será lançada
agora, outra no início do próximo ano
e outra no fim do ano. Não dá para contar
tudo num único livro. Não sou um Gabriel
Garcia Marquez para escrever um livro tão complicado.
O primeiro tratará do ano de 1969, quando estive
na clandestinidade e saí do Brasil. Foi o ano
mais difícil, mais apertado, mais complicado,
o ano decisivo entre a luta armada e a ditadura. O
livro falará exatamente deste ano, o de 1969,
do início ao final, porque casualmente as coisas
todas aconteceram neste ano. O livro seguinte abordará
os dez anos que passei em Cuba. E o terceiro será
sobre meu retorno ao Brasil, a volta do exílio
e a readaptação, minha e dos meus filhos.
Como surgiu a idéia de fundar uma empresa
especializada em informática?
MARÍLIA: O Marcelo, meu filho, estava estudando
informática e sempre me dizia que eu tinha
que estudar também. Aprendi linguagem C no
café da manhã. Até que pensei
em abrir uma empresa de informática. Nós
inventamos um sistema de administração
política que era o máximo. E nunca ninguém
conseguiu usá-lo. O sistema era tão
completo, tão maravilhoso, que nenhum candidato
político iria usá-lo. O sistema controlava
tudo: início da campanha, grandes eleitores,
praças do Rio inteiro, quantas pessoas cabiam
numa praça, parte financeira, de propaganda,
pesquisa, etc. E isso jamais seria usado por um candidato,
porque, na verdade, eles não estão preocupados
com isso.
E o sistema chegou a ficar pronto?
MARÍLIA: O sistema era muito grande e era
impossível fazê-lo. Acabamos chegando
à conclusão de que era preciso fazer
uma ferramenta para criar o sistema. Porque era impossível
programar tudo aquilo. Foi aí que nasceu o
gerador de sistemas, da necessidade de fazer este
sistema enorme, maravilhoso, espetacular, que ninguém
nunca usou. Já dei de presente e não
tem jeito. Foi daí que nasceu o kit 5, da necessidade
de se programar com mais rapidez e fazer sistemas
maiores com agilidade. Tínhamos que ter um
diferencial no mercado. As pessoas ou empresas desenvolviam
sistemas e cobravam por eles. Nós decidimos
vender o sistema como produto. Dentro de uma caixa.
Decidimos lançar o kit 5 para o varejo e isso
foi uma revolução. O Brasil inteiro
começou a usar o kit 5. Marinha, exército,
aeronáutica, até hoje. Se for à
Ilha das Cobras, vai ver que todos os sistemas de
controle de vôo são feitos com o kit
5 pelos próprios oficiais da Marinha.
E isso não criou problemas com os chamados
desenvolvedores de sistemas?
MARÍLIA: No início, os programadores
odiavam a Ebendinger por causa do kit 5 e depois passaram
a usar também o software, porque tinha usuário
fazendo programa mais rápido e melhor do que
eles. E o programador descobriu que poderia ganhar
dinheiro. Em 94, um baiano nos ligou e contou que,
com muito sacrifício, ele tinha comprado um
laptop. Ele vai de cidade em cidade, no interior da
Bahia, procurando lugares para informatizar. Ele pára
na cidade, desenvolve o sistema com o kit 5 e implanta
na máquina do cliente. Pega o ônibus,
vai para outro lugar. É um vendedor ambulante
de informática.
E a entrada da empresa no mercado americano?
MARÍLIA: Queríamos vender o produto
nos Estados Unidos, mas vimos que não íamos
ter condições e decidimos rever nossa
política. Sairia muito caro pôr um produto
de varejo no mercado americano, que é muito
grande. Em 98, começamos a distribuir o kit
5 de graça nos EUA. E paramos de vender no
Brasil também, porque não seria justo
oferecê-lo gratuitamente lá e cobrá-lo
aqui. Ele era até então 90% de nossa
renda, mas precisávamos ter coerência.
Como temos clientes que seguram nossa receita, continuamos,
porque, de qualquer forma, isso não seria tão
ruim. Se você ganha em número de usuários,
o valor de sua empresa cresce. Hoje, como oferecemos
o kit 5 de graça, paramos de anunciá-lo,
mas as vendas não pararam. Quem entra na nossa
página e se interessa em comprá-lo,
também pode.
A Ebendinger aparece pouco na mídia especializada,
mas lembro-me de sempre ver anúncios de vocês...
MARÍLIA: Em abril de 93, decidimos anunciar
no Informática etc. Quando o corretor do GLOBO
chegou, avisamos que queríamos fazer um anúncio,
pequeno, porque não tínhamos dinheiro,
mas na capa. Em nenhum outro lugar que não
fosse na capa. Acho que fomos os primeiros a anunciar
na capa do caderno. Nós nunca anunciamos em
outro lugar. Ele deve ter pensado: "Pô,
esse pessoal ainda nem existe e quer logo a capa?!"
E avisamos: "No próximo mês, vamos
anunciar meia página!" Ele olhou com aquela
cara de "eles são piradíssimos".
Conferiu nossa ficha, viu que não devíamos
nada a ninguém e anunciamos. Depois de 15 dias,
ligamos para ele e informamos que queríamos
anunciar de novo. Era a nossa primeira Fenasoft e
anunciamos mesmo, meia página. Quem viu esse
anúncio foi o Dvorak (John C. Dvorak, colunista
de informática americano), que estava no Brasil.
Ele ficou enlouquecido com o programa e ficamos amigos.
Outro dia, liguei para ele e avisei que estávamos
lançando o Kit Web nos EUA. Ele falou: "Meu
Deus, não acredito!". Aliás, ele
sempre falou: "É de uma pequena empresa
que vai sair uma grande revolução."
Informática Etc.
O Globo - 06/08/2000
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